segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Posteridade I

A tela em branco é algo angustiante. O maço de cigarro descansava sobre a escrivaninha. E ele odiava a falta da correção da ortografia. Ouvia Feira Moderna e sentia que estava em outra época, outro contexto, era palpável.


Todos os dias acordava no meio da noite, fumava um cigarro olhando os filmes que nunca havia assistido, sentado na cama, passava as mãos sobre o rosto, e tentava dormir, fracassando mais uma vez.


Não conseguia ouvir uma música até o fim, era impulso, quando estava quase acabando, mudava rápido, mesmo que fosse para repetir, era estranho, não era para acabar, não podia acabar, ah, sim, ele possuia sério problemas com os finais, quaisquer que fossem.


Era necessário uma continuidade eterna, mesmo que a idéia de infinito lhe gerava expressões de tédio, ah, mentira que a face tenta nos contar, qualquer sinal de término já o assustava, amedrontava, então, o moço procurava sempre uma maneira de trazer o passado à tona.


Nada era deixado, era sempre um fluxo, inúmeras cordas que uniam o passado ao presente, tantas deturpações, tantas memórias inventadas, mas eram lembradas todos os dias, em meio a tanta nostalgia patética, eram cultuadas, altares e fotografias, papel de chocolate e flores de plástico, tudo, era tudo preservado por um medo irracional de se perder no universo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Sentado no carro

Ler ao som de: And I love her, versão de Rita Lee


Para Ana e Pedro.



Mágico. Impressionante entrar em contato com algo tão mágico. É realmente incrível, te faz questionar o conceito de mágica, não? Mágica é, por definição, uma forma de distorcer a realidade, correto? Acredito que a música tem, absolutamente, esse mesmo potencial. Em certos momentos, o êxtase musical altera completamente a realidade ao nosso redor. Por que não definir como algo mágico?



Sinto-me intensamente absorvido.



Assim, com os fechados, seu corpo se flexionava ao ritmo das batidas de rock psicodélico que saíam das caixas de som. Sentado no banco de trás de um carro, sentia seu interior imergir, movimentar, como se quase saísse do corpo. Sua mente não pensava, não pensava em absolutamente nada. Talvez fossem precisos muitos meses de exercícios de ioga para se obter tamanho esvaziamento mental. Era como se tudo que passasse por sua mente fosse uma onda, uma torrente, de algo que ele não podia descrever, e quando poderia?



Só sabia que era luminoso, que vinha em velocidade e a tudo perpassava, em ritmo musical. Intenso, tanto que depois os deixava cansados. Sentados estavam ele, ela. Ao lado dela, sentava o garoto por ela definido de “lisérgico”. Estranha coincidência?