quarta-feira, 1 de junho de 2011

Contos Cruspianos I

Olá, tudo bem? Que bom que chegou a tempo para o café. Sente-se, fique a vontade. Se importa se eu fumar?
Imaginei que não.
Pelo que entendi ao telefone, você deseja gravar minhas memórias para uma pesquisa de histórias de vida dos estudantes que passaram pela moradia da USP, certo? Espero que tenha muitas fitas para gravar, pois, apesar de minha péssima memória, tenho muito a contar da época em que morei por lá. Pegue um pouco mais de café, daqui a pouco colocarei água no fogo novamente.
Bom, como posso começar?
O Crusp, Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo, era ainda em 2010 um lugar interessante de se viver. A história do residencial era incrível: as instalações foram construídas para ser moradia provisória dos atletas do Panamericano de 1968, e seriam demolidas após o evento. Um grupo de estudantes ocupou os prédios e exigiu-os como espaço de moradia estudantil. Dos doze blocos de seis andares originais, restaram sete, do A ao G. Dois tornaram-se reitoria, três foram demolidos. Assim se deu a origem do palco de muitos eventos da história do país. Foi foco de resistência durante a ditadura, escondeu líderes, promoveu assembleias, foi invadido pelo exército.
Acima de tudo isso, o Crusp era palco das mais peculiares personalidades que se poderia encontrar. Impregnando de memórias as paredes dos mais de mil quartos, as mais interessantes histórias de vida convergem em um único lugar.
Não era incomum que o Crusp recebesse a alcunha de lugar de loucos, e tinham lá sua razão. Contava-se entre os cruspianos, com ar de certeza, que “uma pesquisa” constatou que os “níveis de insanidade” entre os moradores eram altíssimos, considerando-se a proporção. Bastava então cruzar com algum maluco no corredor e o cruspiano acendia com a cabeça, mostrando que estava certo.
Fora talvez algum grau de loucura, muitos tinham em comum o fato de fugir de um meio de pobreza para entrar no meio acadêmico, ainda que fosse pela porta dos fundos. Mesmo que em muitos níveis e graus variados, o que tornava os cruspianos próximos era justamente o objetivo comum de progredir além das possibilidades que lhe ofereceu a família, de viver a universidade que para eles não fora reservada. No fundo, todos pareciam sentir-se como peixes fora d'água, que não pertenciam totalmente aquele meio, àquela realidade tão distinta da que viveram na adolescência.
Era assim então que eu vivia, desfrutando de um mundo novo, vivendo ao sabor do vento. Pude então conhecer o multi-universo de personalidades e histórias que conformavam as paredes do Crusp. Foi assim que conheci alguns dos mais singulares, outros dos mais perigosos, alguns dentre os mais interessantes, muitos dos mais intrigantes. Por escolha totalmente “aleatória”, vou contar-lhe a história de Gabriel.

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